Prestes a completar 95 anos, Severino Nascimento da Silva fala sobre o futuro como alguém a quem o tempo ensinou que sempre há algo novo a aprender. “Sempre fui muito apaixonado por aprender. Nessa idade que eu estou agora, sigo acreditando que a educação está acima de tudo”, afirmou.
Foto: Willame Lucas
O aposentado está entre os mil estudantes que participaram da formatura do Programa Alfabetiza Piauí, realizada na noite da última terça-feira (26), em Teresina. A iniciativa do Governo do Estado, executada pela Secretaria de Estado da Educação do Piauí (Seduc-PI), é voltada à alfabetização de jovens, adultos e idosos que não tiveram acesso à escola na idade adequada.
Em dois anos, o programa alfabetizou cerca de 50 mil piauienses e se consolidou como uma política pública voltada à redução do analfabetismo no estado. Para garantir a permanência dos estudantes são ofertados transporte, alimentação e incentivo financeiro ao longo do período de estudos.
Foto: Gabriel Paulino (Secom)
A dimensão dessa mudança aparece em histórias como a de seu Severino. Sem ter conhecido pai nem mãe, ele começou a trabalhar ainda criança, como tantos brasileiros de sua geração. Cresceu em uma realidade em que estudar parecia um privilégio distante.
“Comecei a trabalhar com seis anos de idade e, desde então, venho lutando nessa vida. Eu queria ir à escola, mas sempre que alguém me matriculava, não me davam chance de estudar. Cresci, cheguei à idade de casar e não tive condições de educar meus filhos direito”, relembra.
Pai de sete filhos, Severino voltou à sala de aula mais de nove décadas depois do início de uma vida marcada pelo trabalho precoce e pela ausência de oportunidades.
“Voltar à escola me deixou muito satisfeito. Nunca imaginei viver uma formatura nessa idade. Me sinto com muita vontade de continuar estudando. Amo minhas professoras, meus colegas e sou muito agradecido por essa oportunidade”, completou.
Foto: Gabriel Paulino (Secom)
As histórias que se cruzam na multidão de formandos mostram que o retorno à escola raramente acontece sem o incentivo do entorno. Em muitas famílias, a educação acaba se transformando também em espaço de acolhimento, reencontro e reconstrução.
Foi assim com Ocimar Mendes (50) e Eliane Barreto (45). Moradores do município de Elesbão Veloso, os dois decidiram voltar a estudar juntos. Em meio a um processo depressivo, dona Eliane encontrou nos estudos uma forma de reorganizar a própria rotina e recuperar perspectivas que haviam ficado pelo caminho. Ao lado dela estava Ocimar, marido, companheiro de vida e, agora, colega de sala.
“Voltar ao colégio foi uma decisão que me deixou muito feliz. Me deu uma nova luz na vida. Hoje é um dia muito feliz”, contou Eliane.
“Eu me sinto muito grato por estar vivendo o dia de hoje. Foi muito bom poder voltar à escola ao lado dela, minha companheira”, completou Ocimar.
Na plateia, os filhos Ismael Victor e Gabriel Mendes acompanhavam a cerimônia com o orgulho de quem conhece o caminho que levou os pais até aquele momento.
“É muito gratificante ver eles vivendo esse dia de hoje. Vieram de uma realidade muito humilde, enfrentaram muitas lutas e, depois de criarem os filhos, tiveram coragem de voltar para a sala de aula e recomeçar”, afirma Gabriel.
Em um outro canto do salão de festas, três gerações da mesma família comemoravam juntas a noite de reconhecimento.
Aos 70 anos, dona Francisca da Conceição decidiu voltar a estudar depois de ouvir o incentivo de uma amiga. Não voltou sozinha. Levou consigo a filha, Leda Maria da Conceição (42) e o neto Rafael Conceição Silva (29).
“Primeiro a minha amiga voltou para a escola. Depois ela veio falar comigo e me incentivou também. Eu voltei e estou adorando, porque todo tempo é tempo para a gente estudar”, lembra a aposentada.
Para Rafael, a volta à escola reacendeu um antigo projeto de vida. “Ter a parceria da minha avó e da minha mãe fez toda a diferença. Sempre sonhei em me tornar engenheiro, mas isso foi ficando para trás com o passar do tempo. Talvez, agora, eu consiga dar esse orgulho para elas”, relata.
Em comum, as histórias de seu Severino, do casal Eliane e Ocimar e da família de dona Francisca ajudam a compreender o alcance de uma política pública que escolheu apostar em milhares de piauienses, a quem pode ter faltado leitura, mas nunca coragem.